Precisamos desenvolver novos antibióticos

Cada vez mais temos bactérias multirresistentes, o que torna insuficiente nosso armamentário antibacteriano. Algumas infecções são causadas por germes que respondem a apenas um antibiótico − ou a nenhum. Novos antibióticos são uma necessidade, mas não são drogas lucrativas: usamos antibióticos, no máximo, por 2 semanas, com raras exceções, e cada vez tendemos a usá-los por menos tempo. As comissões de controle da infecção hospitalar querem exatamente o que seu título diz: controlar o uso de novos antibióticos para dilatar o prazo no qual inevitavelmente aparecerá resistência. O mercado de novos antibióticos é restrito: compare com drogas como estatinas, anti-hipertensivos, medicações para dor crônica e antiácidos, que são usados por longos períodos de tempo sem qualquer restrição (deveria haver alguma, mas essa é outra história). Aí que está o lucro.

O desenvolvimento de novos antibióticos em sua fase final exige estudos comparando as novas drogas com as velhas, e elas deverão pelo menos ser “não inferiores” para que sejam autorizadas pela Food and Drug Administration (FDA). Recrutar número suficiente de pacientes com a infecção bacteriana por aquele germe não é fácil, e é mais difícil ainda quando é preciso recrutar doentes com infecção por bactérias resistentes. São publicados trabalhos com poucos pacientes, e estudos com poucos pacientes e viés de recrutamento podem levar a trabalhos com menor relevância científica. Estudos só in vitro não resolvem. Alguns exemplos: daptomicina não é uma boa droga para infecções pulmonares, e isto foi descoberto depois que ela foi licenciada; posteriormente, percebeu-se que ela gruda no surfactante pulmonar. Doripenem funcionou bem para infecções intra-abdominais, mas não para infecção pulmonar associada à ventilação assistida. Dafloxacin em dose única funcionou para infecções cutâneas, mas falhou várias vezes em gonorreia. Existem outros exemplos.

Uma solução  seria fazer novos antibióticos economicamente interessantes para Big Pharma, mas preços muito altos os tornam inviáveis para uso clínico e, por mais caros que sejam, nunca serão comparáveis aos preços dos anticorpos monoclonais que existem por aí…

Cox E, Nambiar S. Baden L. Needed: antimicrobial development. N Engl J Med. 2018;380(8): 783-85. http://doi.org/ 10.1056/NEJMe1901525.

Precisamos desenvolver novos antibióticos

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